Como foi e, talvez, ainda é meu rom tem o direito a matar sua romi, mas Carmen sempre será livre.
Dedicado
Às canções de Paulinho da Viola; à Maria Renata; à criação de Carmen, de Marimèe; à ópe-ra Carmen, de Bizet; às putas da Boca do Lixo; ao malandro sem nome; e, sobretudo, aos meus filhos Pedro Henrique, João Gabriel e Guilherme.
Seis horas da manhã, ele chega, enfim, naquilo que se chamam de terraço do cortiço, silenciado, concordando com o desfecho. Sim, chega! O ato foi o de chegar, mas nada sabe, está inerte, não tem mais que se preocupar com nada, apenas chega e fim. Mas nem sabe se chega ou se parte para um novo e misterioso destino. O seu corpo lhe furta a percepção e a sua emoção ignora o tempo e o espaço. Ainda não é totalmente dia, no horizonte precipita um abóbora, o horizonte. Um horizonte nulo. As coisas, o tato para as coisas não percebe aquele homem moreno e a sua espessa corrente de ouro dezoito caindo pela palma da mão esquerda. Tudo nulo nele; as duas correntes no tórax: a grossa, a fina, ouro dezoito, o horizonte. Basta erguer o crânio para saber que acima de sua crise habita o horizonte, uma chama fria, hori-zonte neutro que acorda para um sono bom, um novo dia abóbora, ou laranja. O esplendor no dourado da visão que, de quando em vez, reflete-se no adorno do ouro no corpo posto e a cor do corpo irmana-se à tez morena da manhã. O Malandro taciturno carrega a sua cuíca na ponta dos dedos canhotos, camisa desazo enquanto a destra maquinalmente viaja o cigar-ro pelos lábios grossos.
Vinte e oito anos, ou um pouco mais. Ele tem o dia vinte e dois de outubro para resol-ver uma questão de honra com Tomé, no centro velho, nalguma hora da noite, sim! Honra. Duas e quinze da madrugada. Alguns companheiros testemunham ou soldam à espera de or-dens para comprovar se a questão seria resolvida, no mano a mano. “Sem ordens, a coisa é minha, sangue bom!” Tomé temeu, mandou recado através de Perna Fina para marcar o duelo em outro espaço: ‘Te manda, Perna Fina!’ Tomé tentou, ‘Mas talvez não houvesse as diferen-ças! Talvez um papo na Praça da Luz, um ambiente ermo, no mano a mano.’ Malandro está na Praça da Sé. O encontro fora transferido para a Estação da Luz, na frente da praça. Mas foi, queria ir, foi, puto pelo caminho, Malandro foi com os seus. Atravessou atônito e resolvido a rua que serve como ponte para os trilhos do trem e parou; observou a praça mal iluminada que guarda em algum canto o seu inimigo Tomé: tudo ermo: ‘Não tem importância, talvez alguma cilada, não tem importância.’ Malandro odeia uma única vez.
Foi assim, sabe, falta de respeito, sabe quando o sujeito passa dos limites? Quando os amigos dançavam na gafieira do Bixiga, na bela noite de vinte e um, Dagmar, morena vistosa, corpulenta, ancas de vitrines, lábios de negra, canelas finas, gingado na cintura e acompanha-va Malandro pelo salão. Tomé, bêbado, decidiu que Dagmar devia acompanhá-lo ao chorinho, ele era o tal contrabandista e então ela deveria ser dele e a flauta suava, a cuíca chorava, luz difusa própria para a arte da dança. Tomé insistia, mas era dispensado pela morena e ignorado por Malandro, relutava, queria a morena, ‘uma cabrocha a dançar’, e não era Tomé quem a trouxera, então, o salseiro estava armado. Tomé disparou a mão na anca da mulher, segurou-a pelo braço e jorrou maldades de todas as espécies sobre o seu parceiro: Malandro? ‘Quem é esse bosta, não tem nem nome!’ Dagmar se conteve. Era regra, ‘mulher não’, se conter e não seria ela quem resolveria a questão, ela não, ‘mulher não’, se acantonou calada. Malandro a-certou um murro em Tomé que, de imediato, ganhou o chão ao tentar revide: ‘Não aqui, san-gue ruim. Deixa pra lá.’ Tomé prometeu vingança de morte, em algum lugar, fora dali, na Pra-ça da Sé, Estação da Luz, em algum lugar, noutra hora, sim, ‘esse Malandro sem nome bateu em Tomé, no Rei, sabe o que é, mermão?’, ambos de acordo, aquela noite estava muito boa para terminar em merda. ‘Não merda, não!’. Noite dos notívagos, dos dançantes, dos cara que querem as mulheres, das mulheres que querem os caras, merda não. Sem entreveros. Nenhu-ma questão pode ficar assim, sem ser resolvida: um duelo, sim, idéia, muito ódio, questão de-ve ser resolvida: ‘Calma Malandro!’ A Sé ou o centro velho, na próxima madrugada, para que todos saibam. ‘Ok, mermão’.
Tomé, conhecido no centro e da noite, contrabandista, alimenta a Galeria Pajé, tem gangues, dinheiro, armas, tem poder entre os marginais e dentes de ouro na boca. Estaria des-moralizado caso faltasse ao encontro, duelo, sagrado, de morte, o murro na cara em pleno sa-lão. ‘Não, isso não! Quase tirou meu dente de aurium da boca!’ Ou era tudo papo furado, ou uma guerra de nervos, ou nada, ou o Malandro pode ser um bunda e será fácil desbancá-lo. ‘Seria bom para os meus negócios.’ Mas Malandro tem ódio e quer resolver tudo na mesma hora, na saída do salão: ‘Meu igual, ele bolinou a minha nega! Como há maldade no coração do homem!’ Malandro resolveu por aceitar o encontro. No fim de festa não consegue mais jogar o pé direito à frente para dar o passo da sua gafieira. ‘Tá vendo, gente minha, tá vendo!’.
Na rua da praça, em frente à estação, o Malandro. No meio, entre um lado e outro da rua da praça, em frente à portaria fechada da estação, Tomé, sorrindo para lucilar os seus den-tes de ouro. Atrás de Tomé, uns dez metros, sua gente, seis homens carrancudos. Em seguida, atrás de Malandro, um bando de doze ou treze homens fortemente armados, aquietados ao silêncio do patrono irado. Só os dois, como combinado. Tomé menciona temor. O sorriso de outrora pela possível vantagem fora engolido a seco; nele o presságio congela os ossos.
As lâmpadas que jorram raios amarelados não eram suficientes para iluminar a praça, visto que tantas delas necessitam de reparos naquele dia vinte e dois de outubro. Pouco mais de vinte e oito anos de Malandro que caminha, por ser outubro, com a boca espumando de ódio até o encontro daquele inimigo mortal: silêncio absoluto. As árvores estão negras, respei-tam a sordidez da madrugada; bancos sujos, a praça suja, respeitam a greve dos garis. Os mendigos dormem, talvez pelo cansaço não se apercebem do que se passa.
Lá, no apartamento conjugado à Rua Vitória, Dagmar, apreensiva, toma calmantes, an-siosa por notícias daquele encontro. Uísque mais calmante, e mais, mais, faz com que a amiga que divide apartamento a leve ao primeiro pronto socorro. Calma, cama, desintoxicação. ‘Dagmar treme tanto, o que será?’ Internamento por esta noite, glicose, soro e alguns lenitivos e repousar para esquecer.
O salão da gafieira fechou porque vinte e dois de outubro, segunda feira, é dia de des-cansar os funcionários que, como Dagmar, estão ávidos pelo resultado do entrevero. ‘Aquele Tom Mé é mesmo forgado. Merece um resultado’.
Próximo de Tomé, Malandro saca uma automática, 765, leva-a em direção dos olhos para mira. Tomé se afasta por ter descoberto que Malandro não está ali para brincar. Tomé que sempre se julgou o tal treme. Os amigos de Tomé se debandam enquanto ele labuta por um mal entendido: ´Com conversa questões se resolvem, gente nossa! Se resolvem, resolvem’ Tomé leva a mão na cintura, nada mais impede o que há de acontecer. Malandro dispara o primeiro tiro em direção do estômago de Tomé que leva a mão esquerda no local ofendido e com a direita insiste em se armar, quando Malandro dispara pela segunda vez, pois sabe que, se o primeiro tiro atinge a parte baixa do corpo, o segundo, conseqüentemente, atinge a supe-rior e foi o que aconteceu quando Tomé se estatela morto com o segundo tiro na cabeça.
Ninguém nada viu. Não há nenhuma testemunha. Por precaução, Malandro necessitou resolver uma parada, um trabalho no Paraguai. Quem sabe dos seus negócios? Falou-se em abrir as portas de uma jogatina em trinta dias, quando voltasse. ‘Um dia ele volta, sangue bom’.
Calça de linho branca e engomada, cortada à mão, serviços de bom alfaiate. Cinto de couro preto engraxado e lustrado, e cintila, e brilha, importado. Camisa vermelha, algum tipo de seda produzida pelos escravos de China. “De volta o novo e bom Malandro, e aí!” Corrente grossa de ouro dezoito se perdendo nos pêlos do tórax torneado. Chapéu de feltro preto, ócu-los ray ban, quase um espelho, em plena madrugada do dia vinte e três de novembro quando ele, era mais de vinte oito anos, estacionou na porta do salão de gafieira para responder aos “e ai’s?”. Ele palita os dentes. Ele tem esse hábito, é freqüente e vai, e corresponde a todos que o interpelam.
- Falô, meu irmão! E aí, doçura do papai! Comé que vão os negócios, meu irmão? Vou levar Vosmece para conhecer a praia, te entende?
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