sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Estudo da Dor.

Mísseis Cirúrgicos

Dor? Dor não senti.
O primeiro espocar levou uns. Atingiu o concreto imperfurável e o perfurou causando escombros e uma poeira fina. Enfim, veio o silêncio bélico e ao fundo o ruído de sirena, ouvir, ouvir só ouvia o ruído, ao fundo, pois todos surdos tornam-se, mesmo que peremptórios, ou apenas surdinhos, diria, ao som silente dos choros.
Mamãe ali, quase em sorriso, rezando Alá, com o corpo desfigurado e em silêncio.
Papai ali, na posição de Meca, rezando Alá, segurando o mano novo no peito, apertando-o, quebrando-o, e uma viga caída sobre o seu pescoço, e o mano asfixiado, ambos em silêncio.
Na família reinava o desespero, os gritos que via não os ouvia... era uma história muito curta a ser contada. Dor? Dor não. Talvez a realização ao definhamento. Uma triste satisfação.
Minha irmã a me olhar e a gritar, sem som.
Minha tia, irmã de meu pai, chorando. Feliz, eu era o centro das atenções. Eu e meu corpo combalido. Minhas mamas desprotegidas (Alá não gosta), minha roupa em farrapos e minha perna, em fratura exposta, provocava choros, meu antebraço direito retirado do corpo e sangrando lá, cá a hemorragia formigava fria.
Dor? Não senti dor.
Até que o segundo espocar veio, certeiro como o anterior, de um míssil cirúrgico, depois um absoluto silêncio. Dor? Eu sorri...

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