Pai e filho.
Desde o nascimento só me deu dor de cabeça. Fui marido de sua mãe grávida de outro. Como foi difícil carregar a pecha, mas aceitei por amor. Inventei um espírito santo e criei uma estória sagrada em torno dele. Maria podia ser lapidada como prostituta, era a lei. Então tomei a frente da coisa e envolvi o deus da moda. Além do que a casa era dela, da família dela... era o dote.
(- Pai, porque me abandonaste?)
Não tivemos direito a hospedagem digna, a casa que era boa, nada. Acabamos emborcados numa manjedoura. Sem contar a insanidade do infanticida Herodes. Nascido, lá se fomos rumo ao Egito, eu, Maria e um bebê chorando de fome e sem circuncisão, a pé.
(-Pai como doem as minhas feridas. E você não está aqui... porque não te ouvi?)
Voltei. O povo foi se acostumando e passei a ser o pai legítimo daquele bastardinho e até gostava da ideia de ser pai daquele varão, à minha semelhança, não me largava, eu o amava. Certa vez, já adolescente, sumiu de nós. Bastante tempo depois o encontramos junto aos ditos “sábios”. Ali ficou, menino, meu menino, entorpecido por ideias que me deixavam louco. E foi ele com aquelas ideias estranhas e eu não tinha mais idade, saúde ou condições de fugir novamente das sandices dos descendentes de Herodes, que me cobravam por mais madeiras lavradas para confeccionar cruz. Maria até que tentou recuperá-lo: "Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura", mas nada. Até que não tive outra alternativa, se não abandoná-lo. Hoje estou moribundo, sei que vou morrer logo, e ele se quer sabe de mim, andou saindo como uma tal de Madalena, também me abandonou.
- Pai, porque me abandonaste?
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